Ficou um pequeno recanto
ao meu bicho: o banheiro e as folhas limpas sob as patinhas sujas. Ele adora
estar sentado e fungando! Maior alegria é quando ele defeca: sai em folia
saltitando pelo chiqueirinho. Alimenta-se das ideias que ficam nos cantos e que
revira fuçando. Quando ele grunhe desesperado, dou-lhe a ração da razão e a
masturbação tranquilizante... Basta esfregá-lo que lhe escapa um gênio com mil
desejos cansados... Tudo ao porquinho narrador, torpe, truculento, febril e
louco... E ele há de virar gente, o que é simplesmente arrependimento.
Compreendi
de chofre, grave, imediatamente, no meio de um para outro passo: só posso amar
a mim mesmo. Era o que evitava dizer-me, tinha uma espécie de pudor, de
bloqueio que obstava que me odiasse mais. Pois me ocorre que eis toda nossa
semelhança, humanidade!
Impaciento-me
com a demora do elevador e com as obrigações gramaticais para me fazer meio
compreendido. Impaciento-me à espera que há em tentar fazer o inédito do que é
mesmice. E deixo sobre a mesa os Irmãos Karamázov...
“Oi!”, digo à senhora que
entra gorda no elevador, digo quase para dentro. E acabou o fluxo de pensamento.
Agora tudo
me tem de ser imediato, rápido. Se for o caso, para que lhe jogue fora. Não
estou, senhores, se me acharão fútil! Estou extremamente irritadiço!
Dostoievski
não me interessa mais, por enquanto; faltam pouquíssimas folhas e o tal Zossima
me dá na veia com tantas tolices. Estou fora da roda destas conversinhas
intelectuais! Sou extremamente chato... Minha inteligência esta naquela altura
generosa do giro em que mais vale passar por idiotia. Tudo que entra em mim
vira chatice, se chateia. Pode ser perfumado, lindo, virtuoso... fica chato! Pode ser que os velhos sejam
bacanas, sejam agradáveis para além do que há de repugnante em se estar sentado
com camisas de abotoar bafejando fumaça no bar da esquina e na minha cabeça.
Quanto
mais sou amado, mais ridículo sou, ridículo a todos os estágios!
“Oi!”; “Oi,
dona Sandra! Um varejinho, um cafezinho... Café daquele que é preto, tá? ...
Não, filtro amarelo não! Dá câncer!” - Por ora, perdi todo o cuidado ao enfiar
a opinião nos outros. - “Ué, cadê o
outro? José deve ter pego. Eu abro, José pega... Toma!” – reclamou assim e me deu o cigarro – “Ah
é! Você abre, José pega! Tem que vender outro varejo que não seja o da mesma marca que o dele!”; “Ah,
ele fuma qualquer coisa... Ó, ele lá! – apontou-me com o queixo” – saí cantando
- “E quanto mais remo mais rezo prá nunca mais se acabar... Aí dona Sandra,
chegou mais um no balcão!” – ela foi atender -
“Esta garrafa dormiu aqui fora ou vocês não fecharam...”. - ela não
ouviu.
Agora
estou na mão de vocês, estranhos que amam os outros. Sou objeto da prova do
amor desinteressado de vocês: basta me amarem, amar quem não ama ninguém! Meu
medo é que os outros sejam como eu, aí não haverá “mundo melhor” nunca. De todo jeito, quem vive de fazer o bem precisa do mal também.
Lembrei
que mamãe precisa de um lápis. Comprar-lhe-ei uma lapiseira! Ajeito esta ideia
na cabeça até às pernas, e torço para que minha mãe com lapiseira não se
aborreça de alguma forma... Ela tem seus costumes com a antiguidade. Deus do céu! Estou indo, mas como vou indisposto à
papelaria... O Senhor não me veja! Compro também a borracha. Não sei por que
cargas adoro borrachas... Embora não consiga apagar os escritos da vida!
Estou ainda impaciente para escolher, não vejo direito entre tantas caixinhas
na estante de vidro cheia de coisas: “Me vê a lapiseira mais cara...”; “17 reais”;
“Dê-me esta outra aqui de R$ 4.”... - É, nada de ser engraçadinho, amigo! Vai só! O
comércio lhe come o rabo e não tem borracha que dê jeito.
***
com a cabeça-do-cansaço janela da vida afora
colho na boca - nus de
adornos - os versos
como fetos do vento
e cuspo nos outros
o ressecamento
Há
um prazer nos eletrônicos: o de podermos ligá-los e desligá-los. Daí inventamos
o revólver, o gatilho é o “off” do outro, mas falta o "power". Já
tem até o dispositivo silencioso... Aí veio a pistola de choque, ainda
não é muito eficaz porque tem que ser usada a curta distância e o outro pode
ter um controle remoto mais potente, ou pode acordar aborrecido ao lembrar que
foi desligado. Tem o “Boa noite, Cinderela!”
Para
que, diabos, religaríamos um ser humano? Ainda que se inventasse maneira, capaz
que o deixássemos lá, desligado. Melhor inclusive para ele mesmo! Que luta pela
eutanásia! Eu cá, em minha sã consciência - se lhes parece - lhes peço: desliguem
meu aparelho!
Seres humanos... Há tantos por aí! Não façam questão! E para evitar que se fabrique
um novo ser humano, que inicia abrindo o berreiro, temos
anticoncepcionais. Ele berra até que lhe damos palavras que bem vistam sua pirraça!
Não há tsunami que nos dê jeito, somos muitos! Suba, nível do mar!
Mil metros talvez seja pouco! Ainda estaremos vivos, boa praga que somos!
Não,
não tenho a menor paciência com o outro, se não o atropelo, se não o desligo, é
por falta de botão e sobra de covardia... Ah, sim! Digamos “juízo?!”. Sim! Sim! Sim!
Juízo-zo-zo! “Consideração?” Oraaa! Cá entre nós, humanidade, é medo mesmo!
Podemos confessar à vontade em qualquer idioma, afinal, os seres bons não compreendem.
***
Estamos
em grande parte domesticados! Imaginar que na cadeia a comida seja ruim é
suficiente para toda uma geração que come coisas lidamente embaladas e não
menos horrendas não se meter à revolucionária. Não me resta pensar outra coisa
que não sei se é pensamento ou vontade. Os que cometem crimes estão mesmo na
merda! Antes de tudo foram menos amados do que eu, pelo menos! Ah, tem também os doentes! É
preciso olhar para esta indústria do crime, que é a miséria vendo o SP fashion week pela tv.
“Ah, os
filhotes de papai que saem por aí fazendo merda?! Ah, os papais colarinho
branco?! Esses não vislumbram o que seja a cadeia! Não vão para a cadeia, nem
sequer conhecem a miséria, não fazem ideia! Porra, isto de corromper-se não vai
atrapalhar a refeição dos caras! Na verdade, eles também são frouxos e reféns
do conforto como qualquer consumista, muitas das vezes eles só estão revoltados
por causa da violência que veem na tv, aí eles ficam violentos, pitbulls... A parca imaginação também
ajuda!
É de rir, é gozado! O povo quer eleger alguém que faça o bem, o
candidato quer mostrar o bem para ser eleito. Bem feito!
Há
um prazer nos eletrônicos, de podermos desligá-los e ligá-los ainda os mesmos. Os
eletrodomésticos mostram um pouco de como queremos o outro. Seres humanos são
uma gracinha quando cabem fartos no berço! Anões não contam!
O
revólver tinha um problema: fazia barulho, daí fizeram o dispositivo silencioso.
Só que a lei proibiu o bangue-bangue, porque virtuosos como somos sairíamos a
salvar uns aos outros da vida.
Os
marmanjos... para calá-los há os psiquiatras, a tv, as paredes do hospício, os
cigarros... e até a pistola tranquilizante.
Se
os Karamázov deixo sobre a mesa, imagine o que eu não faria com você? Estou
lutando moralmente para terminar o primeiro volume, uma merreca de páginas, 7 folhas.
Puta merda! Só aguento com Céline agora!
Vou
andando implicante e chato, voltando da papelaria. Preciso pôr
para fora, para chatear - que seja!
***
Fizemos
então a roda de samba, para mim meio atropelada às vezes, me dava um pouco de
azia na alma, acendia cigarros e bebia pouco por causa dos acordes que tinha
que enfiar consecutivos... É bom ter o poder de alegrar as pessoas, elas não gostam de
literatura, mas gostam de samba! Elas não fazem literatura na esquina, ao menos
não sabem disso. Mas podem tocar a tantan atravessando; isto, imediatamente! Quando começam a me perguntar quando vai ter mais samba... Aí me chateio! Já
disse, não gosto de compromissos! Tenho vontade de lhes dizer: “Quando me der
na telha. Vai ter quando tiver.”
Era
aniversário da mulher, era sábado e é janeiro ainda. Os demais gostavam na
esquina do bar do José na minha cabeça. Depois me chamarão de vagabundo. Eu os conheço! Ah! “Odail” é o nome
do velho com filho barbado!