domingo, 12 de fevereiro de 2012

PARLAMENTITE (14ª PARTE)

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Que eu estava abalado ou sensível, não soubesse estar assim antes um pouco, até poderia atribuir estas sentimentalidades à poesia recitada pelo velho Odail, belíssima! Declamou para mim e minha esposa em noite tão clara, aquele ar comum canal de outras reverberações, grotescas e exaltadas, febris discussões levianas: políticas, futebolísticas... Quaisquer desses motes que  exacerbam a verve do povo. 


Que eu estava abalado ou sensível, fosse a sombra da noite, sob qual se reuniam aqueles senhores, uma fantasia; tão sujos sob o sol: nervosos, suados, nédios, desbotados e desabotoados... Estavam então mais silenciosos que de costume, receptivos, zelosos de nossa presença de casal... Uma vez só perguntaram pelo samba, com certa paciência e, até diria, com carinho. Ao menos sem soar intromissão ou mera formalidade... 


No entanto, lá não ficamos, pois o bar parecia estar fechando, com as portas que dão para a rua de nosso condomínio já cerradas... De lá saindo, sentia-me com medo dentro do carro... Tentamos ir a um outro lugar mais bem arrumado e disposto a servir-nos noite a dentro, mas o local escolhido estava lotado e a gente em pé esperava que vagassem mesas, o que para mim desfaz a possibilidade de entretenimento. 


Comuniquei então à esposa meu receio, certa fragilidade que me tecia um desconforto, e resolvemos voltar para casa. Sinto isso com mais frequencia quando estou numa multidão  barulhenta. Ela disse que não é bom andarmos pelas ruas quando estamos cismados assim, creio que não por superstição de que algo iria realmente acontecer em razão de minha sensibilidade, mas porque é realmente desconfortável estar assim aflito fora do aconchego do lar. Então sugeriu que viéssemos para um estabelecimento mais perto de casa ou para a mesma, já que eu tinha cá umas cervejas...

Na manhã de hoje, quando desci pelo primeiro cigarro do dia, encontro o suposto filho barbeado com um livro, o que corrobora com que disse anteriormente a respeito de seus pretextos para aproximar-se do velho.


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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PARLAMENTITE (13ª PARTE)



Para que orçar posições tão altas: príncipes encantados, cargos sem cargas, felicidade para sempre? Para nos dizermos ou mesmo nos convencermos que somos todos iguais no fim? Cadáveres! Pois é! Reconheçamo-nos diferentes por isto mesmo, porque estamos vivos por enquanto.

Lá está o Caxeta com mais de 70...  mentindo como um moleque e me fazendo rir um pouco distraidamente, inventando histórias que tenham faltado à gravidade fora de sua cabeça. Coisa que se pode bulir é com o passado! 


O velho Odail escuta atento aquele que acredito ser seu filho ler o horóscopo. São dez horas da manhã aproximadamente.  Odail, mais de 80, passa horas sentado. Chego a ter a impressão de que ele não muda a direção do olhar de um turno para outro.

A juventude ligeira que passa pretensiosa por ali, ao ver a continuidade de figuras tão gastas ao longo dos meses, dias e turnos, sentadas naquelas cadeiras plásticas na esquina, essa juventude acha que vai mais longe. Pode ser! Talvez tenham sorte e coragem verdadeira. Ela, a juventude, até sente certo asco, desprega os lábios num linguodental “Tchi!”; no entanto, eu mesmo, algo entre 20 e 45 mais moço que aquelas almas ali acomodadas, não quero olhar muito para frente como os promissores transeuntes. É isto, leitor: sou mesquinho quando estou na esquina miserável, porque estou mesmo na esquina miserável: bermuda, boina, a primeira camiseta que acho, um cigarro e um cafezinho... Quando estou aqui, leitor, estou aqui! Digo, não estou adiante, não começo a sonhar com publicações, com banheiras de hidromassagem, com nada disso... Sinta como é estreito: estou agora neste "é", neste ínfimo "ser" digitado. Contudo, passou! Perceberam? 


É curioso, porque o “filho” com um jornal barato na mão narra para o seu Odail as boas oportunidades afetivas, viagens ou as últimas sobre finanças do zodíaco... É irônico! Mas eu não sou de rir, balanço a cabeça, vendo estas cenas esdrúxulas da vida se darem sem nenhuma câmera capturando. Sinto-me até triste em alguma parte, nas extremidades talvez, nos dedos quentes envoltos no copo de café. E enquanto o suposto filho lê os horóscopos, o velho mantém o olhar de indiferença no nada ali adiante, nada este que fica entre as paredes anunciantes dos comércios e os carros que passam quase mudos ocupados no cruzamento. Este vão é mais interessante que o filho (suposto), o velho vê a morte mais  de perto que ele, e só motiva os paparicos da cria barbada com ouvidos breves e flertes que lhe concede... Nada é mais importante que a morte que se vê de perto. O filho, pouco amestrado, em nada pode distraí-lo! 


Talvez soe demasiado desprezo esta postura de seu Odail, pode ser cansaço de a anos ouvir as histórias filiais, suas promessas de independência, suas ideias de negócio todas fracassando e o filho continuando sob a aba de seu chapéu. Assim, também ciente disto, é que o filho fale pouco por si mesmo: não traz mais palavras próprias, traz um horóscopo, um jornal barato, uma notícia trágica, senão o futebol... Por fim, qualquer coisa que se coloque entre, a ofuscar a filiação impotente e o paternalismo vergonhoso. É assim que o rebento tenta agradar o pai. Parece que vai pedir desculpas por ter durado tão covardemente, mesmo por ter nascido, por só servir a dar despesa; dá para sentir isto no algo comedido que há em seus gestos. Afinal, seus gestos são comedidos por quê? respondo-me: "Pela timidez, certamente por vergonha...". O rebento tenta falar de outras coisas que não dinheiro, como um pastor que espera o fim do culto! Ele percebe que estou olhando a cena algumas vezes e baixa rapidamente os olhos quando isto acontece, parece que sabe que eu sei que ele é mais um perdido. Diabos! Talvez isto esteja mais em mim, talvez me veja nele e a partir daí tenha começado minha leitura, talvez ele nem seja filho do velho, talvez o velho nem lhe tenha dado dinheiro.


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Levo novamente minha mãe ao médico. Vamos devagar sempre, vou lhe avisando dos buracos na calçada, seguro em seu braço bom, aviso dos ressaltos... A recepcionista está enrolada como da última vez, perdida entre radiografias, guias, autorizações, chamadas que deve fazer, chamadas de telefone e pacientes impacientes. 


O médico tem uma cara de bobo, meio para baixo aquele semblante, meio mole e dissimulada. É como me parece. Não finge muito bem a preocupação. Ora, seriamente? Não o julgo! Se lhe aprecio desta maneira, é porque é automático fazê-lo, na verdade, preferia mesmo nem vê-lo. Pouco se me diz! Só preciso do doutor Leandro por alguns minutos nesta eternidade. Aliás, este tem sido o aspecto de outros médicos que tenho visitado com mamãe. Seja que uma vida promissora os deixou assim, num ritmo menos carente de velocidade... Eles que aprendem a resolver a vida em cooper, em livros e corpos frios sobre mesas... Leram demasiadamente: "a pressa é inimiga da perfeição, a pressa é inimiga da perfeição, a pressa é inimiga da perfeição... Leram algo convincente sobre persistência, mas não foi a fome que ouviram." Enfim, ele olha a chapa. O osso da velha emendou, não no lugar devido, mas emendou. Entre sua fala há algo de silêncio: "A morte não é nada demais". Minha mãe fica feliz, acha que Jeová a curou. Dirá mais tarde à minha esposa: “Viu, o doutor falou para mim que não operava sem transfusão de sangue. "Então a senhora fique com seu Jeová!" Está ai, Jeová me curou”. E gargalha, e saltita!

Ela deve começar fisioterapia, esboça a vontade de voltar a ir à rua, para ver como recepciono a ideia: “Estou cansada de ficar aqui, onde não conheço nada. Lá na sua irmã eu já sei andar...”; “A senhora não pode mais ir pra rua, mãe.”; “Eu caí em casa, meu filho, não foi na rua.” Evidente que digo que na rua então seria mais fácil se acidentar e demorasse mais o socorro... Enfim, no que depender de mim é “Não! Não! Não!”; porém, eu tenho braços curtos, bolsos rasos...  

Então resolvemos mandar a mãe para o Mato Grosso. Antes a devolvo para minha irmã, que vive no centro da cidade. Faltam apenas alguns dias para ela partir com minha sobrinha, filha de meu irmão, que veio de férias para cá. Vai voltar a morar com o primogênito. 


Sempre que ela se vai penso que pode ser a última vez que a vejo, mas deixo a vida escapar entre meus dedos, sobre minha impotência... Deixo a vida ser assim, não me lastimo, não me ajoelho... Gosto de minha velha e me acerto com a vida.




terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

PARLAMENTITE (12ª PARTE)


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Contar o que se passa neste apartamento é pouco, creiam! Pouco como dizer-lhes: “Há um sofá cinza na sala em que minha mãe se senta para ver a TV e ler a bíblia”. Ou “Seleciono aqui no computador alguns filmes bíblicos para que ela veja. Falaria também de iogurtes, de louças e garrafas de água que encho... Bastante coisa de cozinha... E até mesmo de uma barata que assassinei ontem no corredor... Nada de Capitu! Nada de Bentinho! Não iria nesta minha narrativa mais emoção que enfado de elevadores que sobem e descem, no mais, reverberam “bom-dias!” para lá e para cá e pararíamos no andar no meio de caminho. 

Para que a vida vire arte é preciso resumi-la, pular de dramas em dramas, esconder o vazio no vazio, deixá-lo em silêncio! Por isso há aqui mais do que se passa em minha cabeça, algo delirante até, mas veloz! É a história implícita que se retira das reflexões, a história de uma falta de história que contar, um jeito de contar o tempo que sabe ser quase nada! 

Parlamentite é um vício, uma doença palavrosa que une vaidade e insatisfação, algo que me rouba até mesmo de um cigarro e me faz correr da rua de volta a este 17º andar e retirar minha mãe do “Evangelho Segundo São Matheus” (o filme) para escrever. Retiro de minha mãe a voz de Deus que escapa deste computador para lhes dar a minha voz miserável. Gratuitamente!

Recebi a proposta de um amigo... para escrever alguns contos. 10 contos ao longo de 150 dias, com hora e data para entrega! Um a cada 15 dias. Não veio na proposta promessa alguma de retorno financeiro, neste assunto nem se tocou, vestida em roupas sem bolsos esta amizade, depois achei que também era coisa menor e cafona o dinheiro, talvez! No entanto, apesar de não envolver grana, seria para um tipo como eu, à primeira vista, um compromisso sério, porque é coisa que se conformaria entre camaradas. Virtuais somente, mas, acima de tudo, amigos por empatias... e enganos doces possivelmente. 

Outra digo em minha defesa: não quero servir ao que me chateia, que é apertar mãos e não cumprir com a expectativa dos sorrisos. Os contratos que se fodam! Mas os sorrisos honestos, inocentes, sonhadores que se dão nestes começos... É desagradável isto de amarelá-los! Embora eu consiga entender o não cumprimento das propostas por mim feitas: coisas que não chegaram a se concluir. Sempre compreendi, porque não havia grana envolvida, a desistência de meus convidados! Uma peça de teatro tentada, e lá se foram os atores cuidar da vida capital que urrava... ou até mesmo, os mais jovens e com algum tempo disponível, tratar de cuidar com gente e instituições que lhes podia dar algum certificado... Um curta metragem tentado também... E sempre agiu o tempo e a “comparação com outros feitos capitais” diluindo os ânimos dos contribuintes e co-autores. 

Nas empresas, quem quer o começo? As pessoas querem se enfiar no meio, no começo de jeito maneira!, é pesado iniciar. O máximo que fazem é dar um peidinho onírico no início e se uma gorda plateia aplaudir, dizem que foi difícil soltá-lo. Valorizam! Se vaiam, se é vergonhoso... dizem que foi a personagem. Goiânia?! Daqui os jovenzinhos querem sempre se arrancar para o Rio ou Sampa, meterem-se com grandes coisas acontecendo, suplicarem, ajoelharem, entrarem em coletivos lotados, pagarem preços caríssimos... Texto próprio? Produto feito em casa?... Tudo isto os assusta, qualquer coisa que queira partir de uma autoria própria assusta quem quer a "moleza" de se submeter, evidentemente! É assim que os compreendo. 

Tem mais! Ao lado dos submissos não pode ter gente grande (acho que no fundo pensam assim e assim termina sendo), de tal forma até eu mesmo, por momentos, me convenço de minha pequenez em tê-los abraçado. Qualquer grande perto de submissos ou os comanda oportunista ou se afasta. 

O resultado de meus últimos intentos? Um tanto de cacos e a dose de frustração inevitável com o material humano! Bom, a respeito da proposta que me foi feita, lhes conte melhor a seguinte resposta que dei humildemente em minúsculas:

"compromisso não é meu forte. mas acho interessante. 

não escrevo sempre contos com um propósito moral ou imoral ou com uma personalidade autora. sou meio tropicália: "ela nem sabe até PENSEI em cantar na televisão." pois é, creio que não tenho uma personalidade para escrever, as pessoas é que podem ler o texto e alguma personalidade atribuírem ao autor. enfim, também não sei assumir compromissos com arte, não me apraz, talvez porque a vida só me forçou ao amor. 

sim! se não fosse amparado pelos que me amam ou dependem de meu amor: dependências afetivas... amores que enchem minha barriga. se não fosse isto, eu estaria... sei lá! nas ruas talvez, curtindo miséria possivelmente. por quê? porque não faço porra nenhuma, cara! nada que seja “porra” faço! e talvez fosse diferente do que prevejo: fizesse as coisas se não tivesse sido amparado, talvez a solução prá mim seja miséria... a miséria me ensinaria a lutar melhor, com mãos, pernas, tronco... lidar com o mundo de longe sempre me foi insuficiente, "não coloque a mão no fogo" - diziam!, mas tive de colocá-la... depois de ver que em diversos casos como este em que me advertiam eles falavam a verdade, é que ganhou poder a palavra, e comecei a ouvi-los, ganharam minha confiança! mas continuei abusado e querendo o empirismo. não cumpri muitas preparações para fins financeiros que me indicaram os juízos... juízos de meus pais, precipuamente. já outros afazeres da construção de um competidor do mercado foi que não tive mesmo condições de fazer! 

talvez a solução prá mim seja miséria... mas quem entre os que me amparam deixa isso acontecer? meu espírito mimado depende demais destes afetos, desta... "vagabundagem" - se preferirem indignados. sou um rato e homem apenas o suficiente para reconhecer e aturar o rato que sou. é bem duro às vezes, não duvide! é penoso, vez em quando! sabem meus ossos!

ora! não leia nenhum drama nisto que relato, que cometerá equívoco em fazê-lo: não estou mal, não lhe escrevo chorando e nem perto disso... é manhã, estou mesmo sonolento! tenho uma vida ótima e super fácil! rapidamente as pessoas me amam e não preciso fazer nada. datas e horários me assustam. vou até lavar louças, bem possivelmente. "não tenho nenhuma das qualidades necessárias para vencer na vida." e para lavar as louças estou atrasado porque lhe escrevo, porque prefiro fazê-lo. veja bem, a hora do almoço chega e eu deveria fazê-lo, seria o mínimo de retorno para meu amor... 

eu apenas escrevo, xxxxx. porque posso fazê-lo sem que ninguém me diga quando escrever e quando não escrever. nenhuma agressividade há nisto, espero que perceba, pois se nada tenho para desprezá-lo! aconteceu até aqui, desde que nos conhecemos virtualmente, o contrário: sinto gratidão pelo que aprendi com todos no multiply, e você cintila entre estes, inesquecível até então! 

sei que talvez você estivesse até me apontando uma oportunidade com esta proposta. coisa qual eu atenderia com puro interesse somente, ainda dependendo de qual oportunidade se faria. pois é! não sou anjo, não sou puro, tenho sexo e bolso. só sou puro quando não tenho compromisso. e é destas produções minhas que informem alguma “pureza”, que os amigos virtuais me tiram. 

aceitaria, porque quero até deixar de ser rato. mas já não acredito que escrevendo possa fazer qualquer coisa que me retorne em sustento. digo, além do que faço escrevendo e falando: seduzir gente. não se iluda! antes que proponha ou mesmo pense por descuido: não seduzo o mercado, porque mercado não é gente e não tem coração. fato! frio fato, tranquilo o recebo. mas olhe bem para mim, meu amigo: "eu perdi esta oportunidade." - e sequer exclamo isto, apenas afirmo apático: “perdi esta oportunidade”. vejo o cavalo e a sela se irem pela estrada que progride para algures e estúpido encosto-me a uma parede e acendo um cigarro... "perdi esta oportunidade" não porque não vá escrever estes contos. pior! talvez os escreva, escreva até mais de 10 contos, e até pudesse entregá-los com farto adiantamento. mas não sei se o farei, sobretudo agora que volto para a academia para terminar o curso de literatura que parei por causa de drogas no rio. 

nada há em mim no momento que não seja uma frieza tranquila, amigo. e o prazer de falar com você... o prazer de achar estas linhas que consigam manter entre nós a boa amizade. peço que cheguem a lhe comunicar com leveza esta recusa... caso contrário, não perdemos nada! porque, neste caso, não saberei escrever bem os sentimentos, desde estes leves, difíceis de apanhar, sentimentos que me fazem declinar da proposta.

de toda forma, dei-lhe o que tenho de mais caro: a sinceridade possível às letras. estou qualquer coisa que diz não serenamente?

um forte abraço."

É bem provável, leitores, que eu nada mais faça de arte além disto: Escrever "cartas"! É bem provável!

Depois ele respondeu, persuadiu-me, mudei de ideia, escreverei os contos. Sou maleável!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PARLAMENTITE (11ª PARTE)


Ficou um pequeno recanto ao meu bicho: o banheiro e as folhas limpas sob as patinhas sujas. Ele adora estar sentado e fungando! Maior alegria é quando ele defeca: sai em folia saltitando pelo chiqueirinho. Alimenta-se das ideias que ficam nos cantos e que revira fuçando. Quando ele grunhe desesperado, dou-lhe a ração da razão e a masturbação tranquilizante... Basta esfregá-lo que lhe escapa um gênio com mil desejos cansados... Tudo ao porquinho narrador, torpe, truculento, febril e louco... E ele há de virar gente, o que é simplesmente arrependimento.

Compreendi de chofre, grave, imediatamente, no meio de um para outro passo: só posso amar a mim mesmo. Era o que evitava dizer-me, tinha uma espécie de pudor, de bloqueio que obstava que me odiasse mais. Pois me ocorre que eis toda nossa semelhança, humanidade!

Impaciento-me com a demora do elevador e com as obrigações gramaticais para me fazer meio compreendido. Impaciento-me à espera que há em tentar fazer o inédito do que é mesmice. E deixo sobre a mesa os Irmãos Karamázov... 


“Oi!”, digo à senhora que entra gorda no elevador, digo quase para dentro. E acabou o fluxo de pensamento.

Agora tudo me tem de ser imediato, rápido. Se for o caso, para que lhe jogue fora. Não estou, senhores, se me acharão fútil! Estou extremamente irritadiço! 


Dostoievski não me interessa mais, por enquanto; faltam pouquíssimas folhas e o tal Zossima me dá na veia com tantas tolices. Estou fora da roda destas conversinhas intelectuais! Sou extremamente chato... Minha inteligência esta naquela altura generosa do giro em que mais vale passar por idiotia. Tudo que entra em mim vira chatice, se chateia. Pode ser perfumado, lindo, virtuoso...  fica chato! Pode ser que os velhos sejam bacanas, sejam agradáveis para além do que há de repugnante em se estar sentado com camisas de abotoar bafejando fumaça no bar da esquina e na minha cabeça.

Quanto mais sou amado, mais ridículo sou, ridículo a todos os estágios! 


“Oi!”; “Oi, dona Sandra! Um varejinho, um cafezinho... Café daquele que é preto, tá? ... Não, filtro amarelo não! Dá câncer!” - Por ora, perdi todo o cuidado ao enfiar a opinião nos outros.  - “Ué, cadê o outro? José deve ter pego. Eu abro, José pega... Toma!” – reclamou assim e me deu o cigarro – “Ah é! Você abre, José pega! Tem que vender outro varejo que não seja o da mesma marca que o dele!”; “Ah, ele fuma qualquer coisa... Ó, ele lá! – apontou-me com o queixo” – saí cantando - “E quanto mais remo mais rezo prá nunca mais se acabar... Aí dona Sandra, chegou mais um no balcão!” – ela foi atender -  “Esta garrafa dormiu aqui fora ou vocês não fecharam...”. - ela não ouviu.

Agora estou na mão de vocês, estranhos que amam os outros. Sou objeto da prova do amor desinteressado de vocês: basta me amarem, amar quem não ama ninguém! Meu medo é que os outros sejam como eu, aí não haverá “mundo melhor” nunca. De todo jeito, quem vive de fazer o bem precisa do mal também.

Lembrei que mamãe precisa de um lápis. Comprar-lhe-ei uma lapiseira! Ajeito esta ideia na cabeça até às pernas, e torço para que minha mãe com lapiseira não se aborreça de alguma forma... Ela tem seus costumes com a antiguidade. Deus do céu! Estou indo, mas como vou indisposto à papelaria... O Senhor não me veja! Compro também a borracha. Não sei por que cargas adoro borrachas... Embora não consiga apagar os escritos da vida! 


Estou ainda impaciente para escolher, não vejo direito entre tantas caixinhas na estante de vidro cheia de coisas: “Me vê a lapiseira mais cara...”; “17 reais”; “Dê-me esta outra aqui de R$ 4.”... - É, nada de ser engraçadinho, amigo! Vai só! O comércio lhe come o rabo e não tem borracha que dê jeito.

***


com a cabeça-do-cansaço janela da vida afora
colho na boca  - nus de adornos - os versos
como fetos do vento
e cuspo nos outros
o ressecamento





Há um prazer nos eletrônicos: o de podermos ligá-los e desligá-los. Daí inventamos o revólver, o gatilho é o “off” do outro, mas falta o "power". Já tem até o dispositivo silencioso... Aí veio a pistola de choque, ainda não é muito eficaz porque tem que ser usada a curta distância e o outro pode ter um controle remoto mais potente, ou pode acordar aborrecido ao lembrar que foi desligado. Tem o “Boa noite, Cinderela!”

Para que, diabos, religaríamos um ser humano? Ainda que se inventasse maneira, capaz que o deixássemos lá, desligado. Melhor inclusive para ele mesmo! Que luta pela eutanásia! Eu cá, em minha sã consciência - se lhes parece - lhes peço: desliguem meu aparelho! 


Seres humanos... Há tantos por aí! Não façam questão! E para evitar que se fabrique um novo ser humano, que inicia abrindo o berreiro, temos anticoncepcionais. Ele berra até que lhe damos palavras que bem vistam sua pirraça! 


Não há tsunami que nos dê jeito, somos muitos! Suba, nível do mar! Mil metros talvez seja pouco! Ainda estaremos vivos, boa praga que somos!

Não, não tenho a menor paciência com o outro, se não o atropelo, se não o desligo, é por falta de botão e sobra de covardia... Ah, sim! Digamos “juízo?!”. Sim! Sim! Sim! Juízo-zo-zo! “Consideração?” Oraaa! Cá entre nós, humanidade, é medo mesmo! Podemos confessar à vontade em qualquer idioma, afinal, os seres bons não compreendem.

***

Estamos em grande parte domesticados! Imaginar que na cadeia a comida seja ruim é suficiente para toda uma geração que come coisas lidamente embaladas e não menos horrendas não se meter à revolucionária. Não me resta pensar outra coisa que não sei se é pensamento ou vontade. Os que cometem crimes estão mesmo na merda! Antes de tudo foram menos amados do que eu, pelo menos! Ah, tem também os doentes! É preciso olhar para esta indústria do crime, que é a miséria vendo o SP fashion week pela tv. 


“Ah, os filhotes de papai que saem por aí fazendo merda?! Ah, os papais colarinho branco?! Esses não vislumbram o que seja a cadeia! Não vão para a cadeia, nem sequer conhecem a miséria, não fazem ideia! Porra, isto de corromper-se não vai atrapalhar a refeição dos caras! Na verdade, eles também são frouxos e reféns do conforto como qualquer consumista, muitas das vezes eles só estão revoltados por causa da violência que veem na tv, aí eles ficam violentos, pitbulls... A parca imaginação também ajuda!

É de rir, é gozado! O povo quer eleger alguém que faça o bem, o candidato quer mostrar o bem para ser eleito. Bem feito!

Há um prazer nos eletrônicos, de podermos desligá-los e ligá-los ainda os mesmos. Os eletrodomésticos mostram um pouco de como queremos o outro. Seres humanos são uma gracinha quando cabem fartos no berço! Anões não contam!

O revólver tinha um problema: fazia barulho, daí fizeram o dispositivo silencioso. Só que a lei proibiu o bangue-bangue, porque virtuosos como somos sairíamos a salvar uns aos outros da vida.

Os marmanjos... para calá-los há os psiquiatras, a tv, as paredes do hospício, os cigarros... e até a pistola tranquilizante.

Se os Karamázov deixo sobre a mesa, imagine o que eu não faria com você? Estou lutando moralmente para terminar o primeiro volume, uma merreca de páginas, 7 folhas. Puta merda! Só aguento com Céline agora!

Vou andando implicante e chato, voltando da papelaria. Preciso pôr para fora, para chatear - que seja!


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Fizemos então a roda de samba, para mim meio atropelada às vezes, me dava um pouco de azia na alma, acendia cigarros e bebia pouco por causa dos acordes que tinha que enfiar consecutivos... É bom ter o poder de alegrar as pessoas, elas não gostam de literatura, mas gostam de samba! Elas não fazem literatura na esquina, ao menos não sabem disso. Mas podem tocar a tantan atravessando; isto, imediatamente! Quando começam a me perguntar quando vai ter mais samba... Aí me chateio! Já disse, não gosto de compromissos! Tenho vontade de lhes dizer: “Quando me der na telha. Vai ter quando tiver.”

Era aniversário da mulher, era sábado e é janeiro ainda. Os demais gostavam na esquina do bar do José na minha cabeça. Depois me chamarão de vagabundo. Eu os conheço! Ah! “Odail” é o nome do velho com filho barbado!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

PARLAMENTITE (10ª PARTE)


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Já não sei quando estou escrevendo o romance ou conversando com alguém. “Todo mundo se torna chato!”, ela disse. “Basta lhes concedermos tempo, e até mesmo aqueles que admirávamos findarão em chatice. As pessoas têm duas maneiras de interagir com o outro: ou lhe ignoram em grossa parte ou se chateiam. Sim! Todos se tornam chatos...” -  Concordei com ela. – “É preciso que nos carreguem em pedaços, quase que vaporizados em palavras. O máximo de colo é quando dizem por aí nosso nome, é o sucinto que nos querem: nosso nome somente. Isto quando lembrar de nós ainda não se lhes tornou insuportável! Nada é mais pesado a que levem em conta do que nossas almas angustiadas e lamuriantes. É assim, meus amigos, que os amores se desfazem inevitavelmente: por excesso do outro, coisa que nada mais é que o outro inteiramente, o outro desempregado, o outro todas as noites, o outro promessa cumprida de casamento, o outro realidade que ronca sobre o colchão macio, o outro descendo a rua que volta pra casa às 19 horas, o outro ser “nunca mais todo o resto!”... Há por certo uma distância e um silêncio que mantêm a chama acesa, há por certo uma briga antecipada antes do fim, uma dose de desleixo que nos faz querer mais, para dizer que ainda há o que conquistar. Um relacionamento funciona como um motor: precisa de água e fogo para girar! Para não irmos longe na abstração: A lenha interpõe quietude no seu crepitar, sabe dizer baixinho suas mágoas, embora arda. É gostoso ouvi-la se consumir no fogo, trec-trec... Doce evolar! Eu? Não posso ser senão meu excesso! Há que aprender a queimar ou a despencar da altura dos delírios ao chão das frustrações capitais com leveza. Aprenda a ser na queda como a chuva, um barulho de gotas no telhado, um aroma de terra molhada avisando pelo vento, um concerto que desculpe seus trovões.”

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sábado, 28 de janeiro de 2012

PARLAMENTITE (9ª PARTE)





As pessoas sentam às mesas dos restaurantes ou carregam suas marmitas. 12 e 30 mais ou menos. Espero brotar a doença dentro de mim, não deu sinal ainda. Sento na esquina! Uma sirene vai longe sob o nublado do dia. José me passa o picado. Estou ocupado com “como” e não com o “que”: com o “como” fazer belo este cotidiano monótono. O “que” é estreito, tenho mais possibilidades no “como”. O “que” é o almoço de todos os dias. Ocupamo-nos em nos manter vivos; às vezes, até saudáveis e limpos. 


Bar, lanchonete e mercearia. Está escrito no toldo azul. Olho as prateleiras, os sabões em barra empilhados. Fico seco nisto algum tempo. 

O velho lambuzado de açafrão e alguns grãos de arroz ao redor dos lábios está à nossa frente... A gente se acostuma com esta imagem deprimente da velhice. O velho ficou sozinho morando num hotel aqui perto. Alternativa ao asilo. “Tem algum dinheiro!”. Não sei se é ex-militar, nem sei seu nome... Não sei! Trocamos as primeiras palavras por causa de música! Ele gosta de Nelson. Eu também. Tenho impressão que um coroa barrigudo e moreno, cabelos crespos e que costuma sentar ao lado dele é seu filho. Pediu-lhe algum trocado, tenho esta impressão: fica em pé à sua frente às vezes como um cão faria. Não tenho certeza de nada! Vejo-me nestas figuras ridiculamente dependentes de outras. Contento-me pensando que antes disso me mato, “Estou aqui só para escrever”. 

Quando cheguei na cidade não queria descer, não queria dar confiança a bares quando vim morar nesta cidade. Aprendi a tocar o cavaquinho, já é suficiente para enganar agradavelmente os ouvintes do cospe grosso e mercearia: José põe à venda o que lembra de comprar, ele tem portas e mesas na esquina, às vezes uma churrasqueira. Mesmo com o novo instrumento eu me continha... 

A mulher pegou o pandeiro. Ficávamos em casa, tocando para nós. Era meio chato como um circo vazio. 

Sábado estaremos lá, firmes e fortes. Disse ao José que poderia contar, horário marcado. 

Agora já temos até uma tantan. Empurramos ao Caxeta o novo instrumento uma noite destas porque há mais instrumentos que músicos. Ele improvisou uma batida enquanto tocávamos, eu e a esposa. Vez ou outra atravessa a música, engasga tudo. Dá pra levar! O público é menos chato que eu, neste sentido ao menos. 

Caxeta é largo e sem bunda, usa bermudas com cinto, agora só me vem a jeans à memória... O cabelo é grisalho. Quase todos no bar têm mais de 60! A tantan é nova, estamos aprendendo a batida básica... mesma coisa se deu com o pandeiro. Até que deu para o Caxeta enganar meio torto! “Ca-xe-ta”... Achei que se chamava assim por causa do jogo que lá põem a valer vez ou outra. José ganhou 850 reais um dia desses! No entanto, Caxeta é sobrenome espanhol. Mente que é uma beleza o indivíduo, é um jeito! Amante, já pulou do segundo para um primeiro andar para fugir de marido ciumento, jogou no Goiás e viu o Nelson cheirando na frente dele... entre outras peripécias. 

Acalmaram no baralho porque agora chegaram as maquininhas de caça níquel. Fiquei surpreendido em vê-las por estas bandas, nunca antes as tinha visto em Goiânia. Dona Sandra, esposa do José, joga o baralho e está enfiando notas na máquina. Pensei: “Ih fodeu! Lá se vai o dinheiro do bar todinho!” São três máquinas bem escondidas, fecharam uma das portas do comércio para abrigá-las. 

José chamou as irmãs para o pagode de sábado. O tipo de comércio não sustenta música ao vivo e, além de tudo, foi invadido mais uma vez, pelo telhado. Sobem pela jaqueira, andam pelo zinco, retiram a telha de amianto, quebram o gesso na madrugada. Entram lá! Não fizeram grande coisa desta vez: beberam um pouco, sujaram, bagunçaram tudo... O pior é a mão de obra para recolocar o gesso no lugar. R$ 300,00! Depois voltam e quebram tudo novamente! Sem graça, sugeri ao José que deixasse aberto o buraco e colocasse uma escada caracol para diminuir os prejuízos. Os cacos de gesso estão pendurados, as pequenas placas brancas pendem presas por arame... 

O José não está com sorte este ano que acaba de começar: como se não bastasse o assalto, amassou a frente da S10 e destruiu um chevette. R$ 3.000 só para o chevette! Devia estar dormindo no volante. Vive dormindo sentado no bar. Algumas vezes fecha o bar meia-noite, todo dia chega às 6 horas da matina para reabri-lo. 

Jogo o cigarro fora! Dizia que é meio dia, que está nublado, que estava na esquina a olhar à prateleira enquanto fumava... Então José se levantou com a pança enorme e dura e com suas botas de couro pretas e as pernas manchadas... Também me vou, pois a leve agonia, a parlamentite se ocupa de mim.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PARLAMENTITE (8ª PARTE)



os anos quebram contra o peito 
como gélidas ondas salgadas e  
sem abraços 


Durmo e sonho com minha avó à mesa de uma antiga casa, mas antes... Deixem dizer-lhes! Lá está meu pai naquela cozinha, puxando uma cadeira, errando o alvo, senta-se no chão perto da pia. Ele me parece meio triste e com a pressa que ainda não o levou a lugar algum, só a desaparecer de meus sonhos. Estou sentado de frente para ele, também no chão, perto do armário de mármore que fica de frente para o fogão, do outro lado da cozinha. É um armário que começa rente ao chão e termina rente ao teto, em qual eu subia e até cabia em suas prateleiras na minha real infância. Aproximo-me de meu pai, deito minha cabeça em suas pernas... Peço que ele fique um pouco mais e daí esta cena se desfaz. 

Hoje estou com má vontade demais, diz-se “quizila”. Até mesmo para escrever meus sonhos, algo que tanto gosto! Dou glórias da empregada não ter vindo, porque poderei lavar as louças com mãos mecânicas que não exigem cabeça, a cabeça esquecerei entre os armários de madeira da cozinha da realidade! 

Ah, meus amores mortos! Enterrados em anos de uma existência frágil de espectros, quase feéricos. 

Agora sim... Sonhemos! Minha mãe está também na cozinha! Chega a outra de meu pai, ela é feito um eufemismo da morte, e nunca antes a tinha visto. Ela é coisa recorrente em todos os sonhos que ele vem estrelando desde que ficou em 1989, ela não tinha corpo até então: era nos meus sonhos só a menção dos outros. Assim que ela cruza a porta e passa a ter uma imagem um pouco cheiinha entre os cabelos compridos, soltos lisos e negros, mas bem mais moça que meus pais... dou-lhe 50 anos 55... Assim que ela cruza a porta, minha mãe faz alguma piada chegando-se para o lado da geladeira, minha mãe age como quem se embaraça numa tarefa, camuflando-se, continuando um cotidiano doméstico que se quer dizer mais importante que a provocação desferida. Ela tem, num átimo, o mesmo sangue quente de antes, a mesma energia para os desaforos de seus 50, 60 e até 70... É assim que ela consegue enfrentar a realidade adúltera naquele aposento onírico. 

Em volta da pequena mesa redonda e amarela com uma larga faixa branca, eles se sentam para almoçar... O rosto de minha avó, a mãe de minha mãe, estava à mesa com a gente, suspenso, numa flutuação em que não se dava ainda falta do resto do corpo, depois se perceberia. O corpo dela estava no banheiro de sua casa, que ficava em frente à nossa, no fundo da vila. 

_Tem gente que não se conforma, gente velha... – diz a amante. 

Meu pai não fala nada, um subordinado a tudo. Minha avó também fica quieta. Minha mãe agora já tem 80 anos e o arroz se espalha na mesa escapando do prato, ela treme o garfo. 

Abro os olhos! Cá está minha mãe pedindo remédio para dor, acho na cartela um último comprimido. Despertos estamos a mais de vinte anos do enterro de meu pai. Dou-lhe seu iogurte da manhã, uma salada de fruta... Ela tem o braço quebrado em três partes há mais de 3 meses, anda lentamente pela casa e joga meio copo d’água em suas plantinhas sobre a mesa de centro da sala. As plantas foram quase assassinadas pela 2ª dose da vitamina comprada no mercado. Estão murchos e secos os xodós de mamãe. Não nos afoitamos muito com esses enganos herbicidas! Acostumamos com esta decepção proveniente dos produtos em geral, apesar de obedecermos à posologia! "Por que demos uma 2ª dose?" É que na 1ª achamos que se tratava de uma coincidência o estado moribundo em que as plantas entraram: aplicamos a primeira dose quando as trouxemos para cá, saídas da casa de minha irmã. E as trouxemos para que minha mãe se distraísse: ainda penso que nada cuida melhor da gente que aquilo que a gente cuida. Como estou um pouco grande para seus cuidados maternais: plantas num pequeno vaso! Enfim, as plantas também murcharam na 1ª aplicação, mas achamos, já que outros vegetais não sobreviveram a este apartamento, que fosse algo misterioso e particular do ambiente deste imóvel o que as levava a esmorecer: talvez uma pouca circulação do ar, pouca luz... Até os cactos morrem aqui! Contudo, acho que é mesmo o tamanho de nosso esquecimento, meu e da mulher, que abafou os vegetais antes que mamãe chegasse. 


Curioso o contraste, se lembro picture-in-picture: minha bisavó cuidava de uma fazenda, minha avó de um canteiro num quintal de minha terra natal, minha mãe de dois vasinhos de planta na mesa de centro da sala deste apartamento. É uma história cada vez mais concreta e apertada.

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domingo, 22 de janeiro de 2012

PARLAMENTITE (7ª PARTE)



Quando passeando de bicicleta pelo estado de Goiás, lá em Santa Cruz, muito no interior deste país, feito uma gentileza, achei uma torneira no meio da praça... Tombei a bicicleta de lado na grama e lavei minhas mãos suadas naquele encanado descuido empresarial, capital... d’onde para longe eu pedalava. 



Lá ainda não é como aqui, onde sinto que resido porque amarrado e medroso de um selvagem mundo fora disto, aqui onde vivo dependente químico. Lá jogavam bola na praça, e vi uma infância que se estende vasta às vozes dos homens pedindo a bola na área... Ouvi dentro de mim mesmo que não era um vício, que lá era uma vida. À noite, armei a barraca perto do ginásio de esportes e dormi na relva... E lá deixei o que agora é lembrança... Porque sou sujo e, nesta altura, já pronto a caber na cidade como todo aquele que já apertou a mão de um cidadão perfumado. 


A cidade não tem quase torneiras sobrando... Os mendigos sujos e fedorentos são os autênticos cidadãos, alastrando miséria aos nossos olhos, na nossa moral piedosa e violenta, esfregando-se como gatos no meio fio de nossos pensamentos, fazendo dos automotivos seus despertadores... O produto da cidade não são os homens engravatados... Estes são seus bobos da corte! Os rios se convertem em esgotos para onde corre a água da chuva que alaga e ancora o que era trânsito, enquanto aquele farto fluxo debocha pelas valas, penso: “Se nem a água ou mesmo o ar conseguem atravessar a cidade limpos, que será de mim menos maleável? Que será de mim mais pesado? Que será de mim se respiro? Que será de mim com tanta sede?"

A cidade lhe dá em troca um hipermercado, um shopping, uma companhia de transporte para as periferias, dá-lhe uma companhia de gás, de água, de energia, de telefone, uma moda para segurar enquanto ela fuma desvairadamente... A cidade lhe oferece um trago, um semáforo, um teatro a céu aberto. Por que não uma torneira mísera em uma só de suas tantas praças? Me respondo: “Porque seria muito cômodo! Porque ninguém mais suportaria o que lhe cobra a cidade, porque esta só pode ser com dependentes!”. A urbe ameaça com homens azuis e cinzas de coturno, com grades, com códigos, que até surpreendem quem não encontrou a escola prometida. Olhando para as praças se vê claramente que não se acolhe a quem dorme. E mal se recolhe o lixo que é feito de gente. 

A urbe coibi o homem espontâneo! “O cidadão precisa servir ao que resta!” "O sujeito vira objeto!"... para ter onde se esconder do frio, da chuva, da fome e sobretudo de outros cidadãos que tiritam lá fora, isolado pelos muros, pelas cercas de arame farpado e ironicamente pelas fartas plantações de algum semideus com tantas almas quanto um velho russo milionário. 

As escolas adaptam o indivíduo ao samba da civilização, esta agremiação lhes retira o interior de dentro, dissipa o possível da singularidade da criança e substitui sua alma ingênua por esta fumaça de progresso, por esta ideia de ascensão urbana, o tum-tum de seu coração feito um surdo manipulado, o sorriso, alegoria mais pesada, espera, fica por último para rir melhor, mas antes amarela ou jaz banguela...



Preciso achar uma torneira, no meio do tudo, para conseguir lavar um pouco a cabeça. 

Para lhes dizer a verdade, isto acima não passa de retórica! E fiquei então pensando nestas saudades do que nunca foi vivido, pois que exatamente aquilo que não adentra a realidade rígida é mais leve, mais sublime, aquilo que não despenca na realidade... Estes estados platônicos nos levam mesmo a achar que as coisas espatifam na existência concreta, digo, estas idiossincrasias ignoram as borboletas, violentamente delicadas e reais e que, no meu entendimento, nunca antes foram ideia de ninguém! Estas idiossincrasias consistem num pensamento de que uma ideia é superior à matéria porque é mais leve, mais rápida, mais divina... Assim sendo, a cidade sonhada, a cidade vista de passagem num dia cansado, torna-se “o melhor lugar” porque o tenho mais na cachola sem gravidade que sob os pés cotidianos, porque são justo as lacunas, que a falta de vivência ali não preenche, que propiciam o deflagrar de ideias arquitetas que constroem cada bodega e recanto a caber nos sonhos bucólicos! Para lhes dizer a verdade, isto acima não passa de retórica! De uma vontade de voltar atrás! De uma besteira cheirosa que dicotomiza vida e vício! Retórica perfumada de romantismo. Quem pensa assim - e tanta gente só sabe pensar assim - sofre um pouco de insatisfação quando de seus projetos realizados. É que o que era ideia brotou como flor entre o esterco de uma realidade indigna. E por falar em "realidade indigna", amigo... Realidade indigna é a que imaginas! Aqui fora só há realidade, a indignação é toda tua! E por falar em perfume... Enfim, desembestei de pensar isto: “Para que servem os mendigos?” E respondi: “Servem para que as pessoas tenham medo ou se sintam constrangidas, para que elas vejam para onde vão, acaso não cumpram o rito promissor. Eles fedem para que vendam as perfumarias”. É o temor que as pessoas sentem de um dia estarem em situação similar a do pedinte que determina se elas darão ou não a esmola e mesmo a quantia desta.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PARLAMENTITE (6ª PARTE)


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Um pacifista teme que o astuto venha a estragar seu séquito lhe contando a verdade: “Vocês formam um exército!” 

Um homem imprestável nunca está sozinho. 

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A mais velha espana o casaco preto no elevador: “tlum!”. A menina pequena é criteriosa como o nariz da mãe previa: arrebitado! Insuportáveis, vozes estridentes! O térreo chega, e a sensação é de se estar livre daquelas duas. “O marido já teria ido embora?” Não dá para saber o que empinou aquelas tão para cima num mundo tão raso... 


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Na rua o homem caminha em direção ao bar. Ouve-se um assobio não se sabe donde, olhamos para o lado, esperamos algo... Não é com a gente! O homem vem, mostra as palmas duas vezes num monólogo, como quem se diz: “Veja só!” ou “Tem cabimento?!” Bebo a cerveja e continuo a mirá-lo como a um oásis ou uma novela. Está na melhor companhia, fala sozinho! Sinto que ele sente alguma vergonha, se retrai, leva as mãos ao bolso da calça social. Espetáculo interrompido! O resto do mundo não lhe servirá como bom companheiro, ele atravessa a rua enquanto está distraído detestando alguma lembrança.


Certamente ele gostaria de jungir-nos, a todos nós, que somos o resto do mundo, às suas ideias, amestrar-nos, adestrar-nos, tornar-nos obedientes. Mas homens que somos, somos isto: uns querendo ensinar os outros a serem eles próprios concomitantemente. Um desalinho!


“Mostrava as palmas...”, eu ainda lembro num gole enquanto ele some de meu campo de vista. “Encaixava alguma coisa em si mesmo, possivelmente algo que num passado próximo não tivera tempo suficiente de digerir. Alguma coisa de indignação, quem o visse perceber-lhe-ia no semblante.” 


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Num blog o rapaz mostra seu gosto, está atrás de complôs, quer montar tropas, exércitos de opiniões comuns a dele, almas que para tanto em comum devem se vender ao normal, ceder aqui e acolá e caber numa opinião que forme o “bom gosto”... O rapaz faz críticas de filmes, diz como os viu - Como mais poderia fazer? Diz... Tenta esconder seu gosto atrás de uma convenção qualquer que sirva também à sua opinião, age pretensioso como quem comunique uma verdade e não unilateralidades. É humilde somente este suficiente: a continuar crido pelos míopes! Joga os interesses sob o capacho e diz: “Sejam bem vindos!” Porém, eu sei, tenho luneta e uma alma torpe também, como as demais: Ele quer dominar o mundo, mas já anda meio desistente, meio desonesto, gordo demais para fazê-lo nos gramados, azarado demais para fazê-lo numa mesa de poker... E se diz aposentado! Antes era trabalhador do possível: carregador das britas da intelectualidade. 


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É isto, só isto: eu não entendo você nem um pouco, só quando você se vende à merda convencional. Você não me entende nem um pouco, só entenderia se eu fosse audiovisual! A vida segue tediosa. “É só por enquanto” – diz a experiência; mas nosso tédio quer gritar “Não! Não! É tediosa sim! Tediosa para sempre!” E é preciso contar as coisas rasgando a si mesmo para ser honesto, porque para ser honesto é necessário concordar com a vivência, admitir: “Não somos capazes de um para sempre, falamos de um instante e só este é o que valemos!” Somos feitos de cacos! 

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Não há tempo de saber tudo ao certo, se formos pensar antes de agir a ponto de tentarmos agir com perfeição, se tivermos receios de ser manipulados... jamais agiremos! Sempre manipulamos e sempre somos manipulados, diabos! Até os que ficam parados a isto foram persuadidos! 

Agir! 

Pirraçar por perfeição não me interessa! Nossa medida não é Deus, é sempre "de agora em diante": olhamos nós mesmos (carne e ossos) e seguimos em frente, inventamos o nosso progresso para atropelar nossos erros e achamos aqui e ali, a cada pegada, o nosso sentido para a vida. 

Nossa arma mais possante é o sorriso! 

É até capaz que eu tenha amigos! 

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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

PARLAMENTITE (5ª PARTE)


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Vende-se amanhã para quem não tem hoje.

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O erro quebra o tédio da evolução histórica que observamos cansados, debruçados sobre livros dúbios, viramos as páginas enfadonhas com mãos pesadas e olhos famintos de sono. "Uma espiga!"; "Que maçada!" - diziam outrora. O erro... Glorioso! Pois como chateia a si e aos demais um ser humano com propósitos que vão se repetindo tenazmente até que haja contento, e de cada contento da satisfação atingida emerge um novo desejo, e daí a inquietude. Ah, senão odiamos os que persistem!

Veja: o camarada faz a mira, tem um alvo mesquinho, a tabuleta que escreve adultério no ar, ostentada pelos braços tesos de uma senhorita que se treme toda... Erra o escopo, no entanto, acerta de uma flechada a lebre inocente que por ali passeava, alimenta a família... Vangloriam-no! O sujeito assume os créditos, convence-se que representa mais o que dizem dele do que aquilo que até então se considerara. A memória que tem da falha ocorrida se distorce em acerto! “Deus! Deus me ajudou!”. Descobre nisto, com alguma perspicácia, que é mais fácil apoiar o acaso que a si mesmo contra esse... Haverá, desde então, de ensaiar sua crença em si mesmo com mais cautela, de persuadir suas intenções conforme o sucesso das eventualidades, assim como o propósito infla-se nas velas do barco e faz sua a vontade do vento, também como quando erra em terras inéditas, reclama só para si todos os méritos de tal descoberta. 

No mais, todos querem crer na nobreza humana. Não lhe faltará glória! Todos querem cantar uma vitória humana contra o gemer sem sentido das correntes do acaso. Tudo em nossa cabeça se adéqua ao necessário no que tange possuirmos um pouco mais de poder e facilidade na vida. 

Se te fazem coro do nome, por que não dirás que és o nome em vez de uma carcaça? Por que não irás adiante como algo sublime? Os nomes hão de caber em livros, na memória do povo, enquanto tu és demasiado inconveniente cheio de intestinos para entrar na história. Tira estas botas de andar pelo atoleiro! Que tal ser espírito? Um espírito evoluído para os espíritas seja! Um santo para os católicos seja!... Qualquer coisa, meu amigo! Tudo! Menos, aliás, o propósito ínfimo que emana de teu parco egoísmo de carne e osso. Esconde o lixo que almejavas. Esconde, em prol da benfeitoria que alcançaste a todos nós. Reverbera em teu crânio impiedosamente a ideia de que tudo alcançaste graças também às eventualidades da natureza?... Desde que tu mesmo és eventualidade da natureza, assume o crédito sem culpa! Afinal, sendo tu mesmo natureza que se tenta distinguir da natureza, faça do que era co-autoria tua obra exclusiva. Extirpa a parceria! A natureza não há de reclamar, nem de invejar a si própria... Tampouco haverá de necessitar de si mesma.

Entre o pensamento e a pedra, se torce o pensamento muito mais facilmente. Sempre teremos imensa facilidade em nos julgar merecedores das benesses. Aos frutos!... Como não, se temos fome? É claro que poderiam vir chuvas de pragas em vez de líquidas. Mas e nossas preces?! Não fomos nós que oramos e fizemos merecido o que era simples acontecimento natural? Sim, foi Deus que nos deu tudo isto... Mas... Ainda assim, não fomos nós que suamos merecedores no arado? Ora! Não fomos nós que ajoelhamos nesse milho? Extirpa a co-autoria do acaso, chama-lhe de Pai, pelo menos, e de dono do mundo, se tamanho consolo te é necessário. Entre o pensamento e a pedra, se torce o pensamento muito mais facilmente. E se a colheita não veio, ajoelha-te novamente sobre o milho... Lembra que teus pais sobreviveram nesta mesma fazenda! O mesmo há de acontecer contigo! Sequer imaginas que tantos morreram... E se acaso imaginas um pouco das desgraças que ocorreram, não apreendes o mundo destas barbaridades! Tampouco chamas essas de “barbaridades divinas”, dizes que há escolhidos e que aos demais faltou fé!

Deus, mas o que é o erro? Este silêncio? Este dizer do ato “um tropeço”, pois que o acerto é dizer “um novo passo de dança”. Tínhamos apenas pressa e apresentamos como “um novo ritmo”. O que se pode fazer é andar à frente, apenas! Ir à frente, cada qual num caminho... A gente, é claro, lê umas páginas antes para poder chamar alguns de retardados, é prazeroso isto! 

O que escrevo é estreito, evidentemente! Na medida que é apenas uma leitura que faço do tudo, é estreitíssimo! É atrasado! Que quanto! Mas se nisto que faço sou redundante, não sou apenas o que falha... Eu e tu natureza, partilhemos este erro. Nós que só acertamos por descuido, pois sabemos que o acerto consiste em conservar o máximo, repetir um modelo o mais perfeitamente possível! Repartimos a lebre do nosso digno erro.